Política e Governança | 26 de março de 2026
Costura Criativa em Mauá: curso de cinco dias exibe inúmeras possibilidades de melhorar o mundo
Idealizador do Ateliê Criativo, Almir França, apresenta recursos que transitam pela inclusão social, proteção ambiental, reaproveitamento de materiais, sustentabilidade, criatividade e senso coletivo
Diversos varais exibem vestidos produzidos com tecidos de algodão e jeans. O clima é de grande ansiedade entre as alunas, que vão chegando aos poucos embaixo da tenda instalada ao lado de uma grande carreta colorida, estacionada no Teatro Municipal. Entre os dois espaços circulam os assistentes e o idealizador do projeto Ateliê Criativo: Costura Criativa, o premiado Almir França. A instalação do projeto durante uma semana é uma parceria entre a Secretaria de Cultura da Prefeitura de Mauá e a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do estado de São Paulo, por meio do Programa de Ação Cultural (ProAC). O curso foi de 23 a 27 de março, em Mauá
Só na turma da manhã estão nove integrantes do Grupo Arte e Comunidade, no Parque das Américas, além de mulheres de outras partes da cidade, incluindo pessoas com deficiência. Já de início, aprenderam sobre como produzir roupas tirando medidas e como o figurino esconde em si formas de representação, comunicam o status social, personalidade, valores de quem usa a peça do vestuário. A princípio, todas costuraram vestidos. Todos os materiais são fornecidos pelo próprio Ateliê. Dentro da carreta estão inúmeras máquinas de costura com cadeiras, mesa, carretéis de linha das mais diferentes cores, tesouras e aviamentos.
França, que é pedagogo e ativista de Direitos Humanos, foi vencedor de um concurso da Elgin, durante a pandemia, e pode dar início ao seu projeto fico no Rio de Janeiro, que avançou também para o curso itinerante na Carreta Ateliê Criativo. Foi indicado para o Prêmio Shell, na modalidade Figurino. Fora isso, Almir integra um projeto na cidade de Paris, na França. Iniciado com médica dermatologista brasileira, Camile Cabral, e em parceria com a Prefeitura de Paris, o projeto é dirigido para estrangeiros clandestinos e profissionais do sexo. Segundo Almir, 90% das mulheres e travestis atendidas são brasileiras. E, no projeto, além de serviços de saúde e bem-estar, elas podem fazer o curso de costura criativa.
Em Mauá, o curso é um sucesso!
“Tomei até injeção para estar aqui, hoje”, disse Neide Grossi Toledo da Silva, moradora no Parque das Américas, superando dores para não perder o aprendizado. No Grupo do Parque das Américas, as integrantes fazem papel de professoras alternado com o de alunas, em que cada uma ensina o que sabe, seja tricô, crochê, fuxico, patch aplique, costura, amigurumi ou bordado. E elas passeiam, fazem almoços e festas temáticas e novos cursos, como este de Costura Criativa. “Agora a gente pode fazer a Festa do Pijama costurando nosso próprio pijama”, disse Maria Aparecida Colucci. “Vocês estão aprendendo e é preciso ter paciência. Primeiro demarcamos, agora, vamos trabalhar a tridimensão, dando profundidade às aplicações”, explicou o instrutor. “Estou amando! Sempre sonhei fazer corte e costura. Agora vamos estudar ainda mais”, falou a coordenadora do grupo, Roseli Fontes Santos.
As aulas são atrativas, permeadas de bom humor e mensagens sobre técnicas, sustentabilidade e pensar social. O material é fornecido justamente para que os alunos olhem para a produção como material coletivo, onde nada é de ninguém. Voltado para a criação de peças sustentáveis, o curso traz mensagens como o reuso de esponjas de cozinha para aplicação de tinturas naturais feitas de frutas e legumes com placas feitas de chapas de radiografia - estêncil - em tecidos reaproveitados, como camisetas escolares, por exemplo. “O vestido é um exercício de estamparia primitiva. Moda não é em primeira pessoa”, diz o professor. O conteúdo do curso é organizado em módulos de Introdução à Moda Sustentável, Tingimento Natural, Upcycling (reciclagem) de Roupas, Design de Moda Sustentável, Produção Ética e Apresentação. Mais informações: : https://estudioateliecriativo.com.br/maua.
Estilista, pedagogo e ativista, Almir França tem 50 anos de trajetória unindo moda, educação e inclusão social. Mestre em História da Moda, é fundador de iniciativas como a Ecomoda e a Escola de Divines, dedicadas à sustentabilidade e à formação de comunidades e população trans. Suas criações valorizam a reciclagem e a economia circular, transformando resíduos em peças autorais e cheias de expressão.
